O Neutro do terapeuta



No prefácio do livro “Os cinco convites” de Frank Ostaseski, é feita uma citação de outro autor que diz assim “Toda tempestade tem um vão no qual uma gaivota pode voar em silêncio”, e que combina perfeitamente com o quarto convite apresentado no livro: Encontre um lugar de descanso no meio de tudo.





Logo ao introduzir esse convite, Frank diz que podemos encontrar esse descanso dentro de nós, sem ter que esperar por alterações nas nossas condições de vida, e que conseguimos isso quando direcionamos toda a nossa atenção, sem distrações, para o momento em questão. O método Mindfulness, cada vez mais conhecido e disseminado, nos convida a fazer exatamente isso: sair do piloto automático, colocando intenção e atenção no que estamos fazendo/no que está acontecendo.

Para o terapeuta Don Ash, esse “descanso” seria o correspondente à neutralidade, à que ele relaciona o verbo “aterrar”. Em aterrar está a percepção do que vale para todos: o fundamento básico de que estamos respirando e presos ao chão pela gravidade. Ele aponta que em momentos difíceis e nos quais parecemos estar sem direção, estar neutro ou aterrado é reconhecer esse lugar inicial em que se está, ou de onde recomeçar: estar vivo é estar respirando e sentindo o chão sob seus pés.

Para um terapeuta, estar aterrado ou neutro pode significar estar totalmente presente e consciente em um atendimento, estar realmente disponível, criando um ambiente favorável à restauração e à preservação da vida. Para uma pessoa, neutralidade ou aterramento podem significar essa intenção de estar atento ao que está acontecendo agora, vivenciando a experiência no momento e lidando somente com o que está presente, sem “ruminações” passadas ou preocupações futuras...O Mindfulness traz como ferramentas para esse exercício algumas “âncoras” que podemos utilizar: o ritmo da respiração, as sensações corporais, os pensamentos que vão ocorrendo, a identificação de sentimentos...são meios de nos manter ligados ao agora, e reduzir as preocupações e sofrimentos que nos acostumamos a antecipar.

Não à toa, esse assunto está tão “na moda”. Estamos percebendo a importância de viver de verdade, e não só passar o tempo...e em momentos em que a vida nos força a desacelerar, o tempo vem para nos lembrar: precisamos estar neutros, aterrados. E nos mostra o quanto é desafiador colocar isso em prática! Mas na verdade já tivemos uma época em que viver era mais ou menos assim, aproveitar o tempo e o agora; na infância há muito mais habilidade em vivenciar a realidade dessa forma. Não deve ser por coincidência que a maioria dos adultos tem saudade de ser criança! ​



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